Este carro das imagens era um dos mais cobiçados na década de 1980. Você podia encontrá-lo em um restaurante caro (parado na melhor vaga, claro), no CT de uma equipe de futebol ou nos escritórios da Av. Paulista, num tempo em que o centro empresarial da Berrini ainda não existia. Refiro-me ao Ford Escort XR3 de 1988, o “carro de bacana” de quase 40 anos atrás. Confira o vídeo abaixo:
Sua versão conversível era mais especial. O mercado brasileiro não tinha um carro com versão descabinada produzido em série por uma fabricante desde os anos 1960 — isso, claro, sem contar os “fora de série” montados em oficinas paralelas e até concessionárias. O Escort XR3 se tornou o carro de quem chegou lá, e a configuração conversível, hoje cobiçada por colecionadores, era a mais aspiracional.
Dirigir esse carro foi uma experiência inesquecível. Meu pai teve um XR3 1989 branco — com cabine fechada — quando eu era bem pequeno, e algumas de minhas primeiras lembranças são daquele carro: tinha teto solar, faróis de milha, aerofólio e as mesmas rodas do modelo das imagens. Trinta anos depois, estou pronto para um reencontro, agora no conversível.
Abaixo do capô, o conhecido motor 1.6 CHT a álcool do Del Rey. A unidade entrega 86 cv de potência e 12,9 kgfm de torque — números que não encantavam diante dos 99 cv e 14,9 kgfm do Gol GTS com motor 1.8 AP. Mas… tudo bem: no segundo semestre de 1989, o XR3 recebeu a mesma mecânica do concorrente da Volkswagen como fruto da criação da Autolatina. Nesse intercâmbio, o Gol pegou o 1.6 CHT emprestado.
Embora exista o preconceito de que “Escort bom tem motor AP”, amplamente proliferado pela internet, gostei da experiência de guiar o XR3 1.6. O volante tem ótima empunhadura e os confortáveis bancos apoiam boa parte das costas do motorista. Num tempo em que não existia ajuste de altura na coluna de direção, o Escort “vestia” o condutor de forma única. Inclusive, é ali que fica a alavanca para abrir o capô.
O câmbio de cinco marchas tem engates longos e embreagem alta — tive certa dificuldade para encontrar a terceira marcha. Após algumas raspadas, deu certo. A entrega de torque é abundante, o que faz com que o levíssimo XR3, com seus 990 kg, não tome conhecimento de subidas, retomadas e ultrapassagens.
Nada como um dia de sol para curtir o XR3 da maneira correta. Para melhorar, o motor trabalha em silêncio: com a capota reclinada, mesmo em uma rodovia movimentada, o som externo não se torna incômodo. Era um carro bem avançado para sua época.
A capota de lona do XR3 tem duas alças de fixação no topo do para-brisa. Ao recolhê-la, é preciso descer uma chave próxima ao banco traseiro — caso contrário, existe o risco de ela se desprender e abrir como um para-quedas.
Essa charmosa unidade, que pertence a Rodolfo Luiz, do Escort Clube do Brasil, teve seus bancos restaurados, mas o padrão de fábrica foi mantido. O XR3 tinha ar-condicionado, rádio AM/FM com toca-fitas, suporte para fitas (bom para armazenar a coletânea do Bon Jovi) e vidros elétricos dianteiros. Em 1988, não era pra qualquer um.
Meu dia de playboy terminou com uma esticada na rodovia. A parte mais legal foi assistir à reação das pessoas com as quais cruzei no caminho. É um carro que resgata memórias, até de quem não tinha acesso a um modelo como esse. Até mesmo de quem nem liga tanto para carros, mas sabe o que o Escort XR3 representa. Se isso não é um carro clássico, o que seria então?
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Fonte: direitonews






