Sempre observo uma divergência entre o consumo do carro no computador de bordo e a medição que faço ao encher o tanque. O painel mostra uma diferença de 1 km por litro a mais. Isso ocorre em pelo menos três veículos de fabricantes diferentes. Tenho meu carro há sete anos e faço a média em todas as vezes que encho o tanque. A concessionária não me responde. Por que existe essa diferença?
Luiz Gustavo Mariani, Porto Alegre, por WhatsApp
Fazer o cálculo do consumo é relativamente simples. Basta dividir os quilômetros rodados pela quantidade de combustível gasto no trajeto definido e pronto. Certo?
Na prática, não é só isso. Medição de consumo é algo extremamente complicado e controverso. Há uma quantidade enorme de variáveis, então mesmo os fabricantes sofrem consideravelmente com esses dados.
Até do ponto de vista jurídico é uma questão delicada porque muita gente não vai conseguir atingir os resultados divulgados pelo fabricante ou pelo Conpet, o Programa Brasileiro de Etiquetagem, sob responsabilidade do Inmetro. Muitos fabricantes nem divulgam esse dado, assim como algumas informações de desempenho, como aceleração.
No caso relatado pelo Luiz, é possível afirmar que esse 1 km/l a mais está dentro de uma margem de erro. É comum que os dados do carro e os obtidos “na unha” sejam diferentes, desde que dentro de uma tolerância. Pode-se afirmar que uma variação em torno de 10% seja aceitável para esse tipo de medição informal e que não tem caráter de homologação.
Quem tem carros modernos, com menos de 15 anos, pode confiar tranquilamente na medição do computador de bordo. Não é necessário realizar medições manuais de tira-teima a cada abastecimento – isso só vai trazer estresse e fazer você perder tempo.
Essas divergências de cálculo ocorrem por que o computador de bordo utiliza dados que não são acessíveis para o usuário comum. As informações são computadas na central eletrônica do motor (ECU), que utiliza sinais dos sensores de fluxo de combustível e até a quantidade de ar que entra no motor.
Os dados processados pela ECU também passam por fatores de correção, todos calibrados pela equipe de engenharia do fabricante. É necessário considerar também as diferenças de qualidade de combustível.
Ao medir apenas o litro utilizado do tanque, o motorista que faz as vezes de contador não tem como aferir a “pureza” dessa gasolina (ou álcool). Não dá para testar a mistura entre a gasolina e o etanol para averiguar se está precisamente em 27%, conforme o índice compulsório utilizado no Brasil.
Para ter o rigor necessário a reduzir a diferença que o leitor declarou na pergunta, seria necessário abastecer em dias com temperatura igual (ou semelhante) e até em mesmo horário.
Ao medir apenas a vazão do que entrou de combustível e o que ficou registrado na nota fiscal do posto, perde-se uma quantidade enorme de informações. Pode, inclusive, haver uma divergência do que de fato entrou no tanque e o que ficou registrado lá na bomba. Sim, pode ocorrer de a bomba do posto estar descalibrada.
A inclinação do carro em relação ao piso interfere na quantidade de líquido que você consegue abastecer. É por isso que dificilmente você vê postos em que o chão está desnivelado. Pode ocorrer, claro, mas o empresário entendido e que sabe fazer conta jamais vai querer que os carros dos clientes seja abastecido em desnível. Lógico.
Se alguém manda encher o tanque, dependendo da posição, o medidor de nível do carro pode ficar numa posição desfavorável e acusar “tanque cheio” quando caberiam mais alguns litros em um piso totalmente plano.
Então, para fazer medições com papel e lápis, o ideal é sempre utilizar a mesma bomba de combustível, posicionar o carro do mesmo jeito, no mesmo horário do dia e mais ou menos com a mesma temperatura. Também precisa encher “até a boca”, ultrapassando o cânister – e isso não é recomendável, pois você pode encharcar esse componente.
Quem está disposto a ter tanto trabalho assim, gente? Não dá pra confiar no “primeiro clique” da bomba porque não necessariamente o desarme vai ocorrer no mesmo ponto do abastecimento anterior. Isso não tem como ser metrificado.
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Fonte: direitonews






