Qual a importância do continente europeu para o mundo?
“Quando a gente fala em União Europeia, […] fala em um corte. Porque quando a União Europeia surge, absorve todas as unidades. Então a capacidade de qualquer país do bloco de fazer política externa independente não é eliminada, mas é limitada em algum grau, já que agora existe uma macroestrutura, que é a União Europeia. […] Parte do esforço da França será voltado para manter a União Europeia. E aí é preciso ver que a França é um país que vive um processo contínuo de degradação da posição externa ao longo do último século.”
“A Alemanha hoje está decaindo aceleradamente de sua condição de superpotência industrial, tanto devido aos problemas de acesso a combustível e energia, não provocados, mas agravados pela guerra entre Rússia e Ucrânia e a posição que a Alemanha tomou [no conflito], mas também devido à perda de competitividade, em termos mais gerais, causada pelo fato de que a Ásia produz mais barato, de que a própria Alemanha e outros países europeus levam suas fábricas para fora do próprio país em busca de maior lucratividade.”
“É a posição de você poder ser do BRICS, poder dizer ‘Não vamos apoiar a Ucrânia’ e, mesmo assim, a Europa dizer ‘Ok’. Porque a posição do Brasil não é mais a posição colonial de autocolonização, de submissão internacional que já foi no passado. E isso é interessante porque torna o Brasil um país mais confiável do que um país submisso. Porque se o Brasil fosse submisso, se o Brasil cedesse à Europa em tudo o que ela quisesse, o Brasil não valeria tanto para a Europa quanto vale.”
Qual a raiz do encolhimento da França na África?
“Majoritariamente, o país [França] é europeísta — consciente, bem ou mal, que no século 21, fora da integração, não há salvação. As eleições para o Parlamento europeu servirão de termômetro do sentimento social e político em todos os 27 membros”, diz Martins.
“Houve uma paralisia geral das relações entre os dois países, agravada pelo fato de [Jair] Bolsonaro, com sua usual incivilidade, haver ofendido a esposa de Macron no plano pessoal. A eleição do presidente Lula foi saudada efusivamente pelo governo francês, apontando para um aquecimento e [uma] cooperação relançadas, acordo do Mercosul excluído.”
Movimento de ruptura com a França pode chegar à Guiana Francesa?
“Improvável. O problema da Guiana, com cerca de 300 mil habitantes, agora está mais na invasão de gangues armadas, originadas no território do Brasil, de garimpeiros ilegais, traficantes de armas e de drogas. […] Não há notícias de associação entre a Guiana [Francesa] e as políticas dos Estados africanos.”
“Eu imagino que a França, ou seja, o que o Macron está fazendo, é administrar uma queda. As relações econômicas do mundo cada vez mais vão dispensar a Europa. A Europa vai se transformar num continente dispensável. É o que eu vejo para as próximas décadas. As relações globais vão passar longe dali. E quando isso acontecer, de fato, perde-se todo o poder. Historicamente, isso aconteceu em todos os impérios. E não há razão para imaginar que a Europa será muito diferente disso.”

Fonte: sputniknewsbrasil