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A suspeita de que uma reunião fechada do Supremo Tribunal Federal (STF) tenha sido gravada clandestinamente abriu uma das mais delicadas crises internas recentes da Corte. Nos bastidores, ministros passaram a trabalhar com a hipótese de que o eventual registro de áudio não teria como único objetivo o vazamento das falas, mas poderia integrar uma estratégia para produzir material capaz de constranger ou pressionar integrantes do tribunal.
A tensão aumentou após o site Poder360 divulgar trechos literais da reunião que discutiu a saída de Dias Toffoli da relatoria do caso Banco Master. A publicação trouxe frases extensas, com aspas diretas e construção completa de raciocínios atribuídos a diversos magistrados — nível de precisão considerado incompatível com mera reconstrução por memória. Essa fidelidade nos diálogos divulgados alimentou as suspeitas de gravação ilegal, pois reconstruções baseadas apenas em lembranças raramente capturam falas com tal exatidão.
A seguir, as principais falas dos ministros, conforme os trechos revelados:
Dias Toffoli iniciou sua exposição olhando “nos olhos” de Fachin e declarou: “não ter nada a temer” sobre negócios de si próprio ou de sua família. Ele explicou que é natural de Marília, cidade paulista a 435 km a noroeste de São Paulo, e tem nove irmãos. Seu nome ganhou destaque porque um empreendimento no norte do Paraná, o hotel Resort Tayaya, teve em 2021 a participação de uma pessoa ligada a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master e hoje investigado por operações fraudulentas pelo Banco Central. Em fevereiro de 2025, essa pessoa deixou a sociedade no Tayaya. Toffoli afirmou que seria a favor de um código de ética para o Supremo se todos os ministros concordassem em divulgar suas declarações de Imposto de Renda, o IR de suas empresas e dos familiares ascendentes, descendentes e colaterais até o 2º grau e afins. Ele disse estar disposto a fazer isso. Nesse momento, Gilmar Mendes interrompeu: “Nós não estamos aqui para discutir Código de Ética”. Toffoli respondeu que só mencionava o tema —bandeira pessoal de Edson Fachin— porque “gostaria de deixar claro” que não tinha receio em divulgar suas contas pessoais. “Inclusive abro as minhas contas bancárias. Mas isso é para estar no código de ética. Eu não vou abrir sozinho”, declarou. Em seguida, Toffoli criticou a Polícia Federal, afirmando que ela não tinha autoridade para atuar como atuou e que o relatório de 200 páginas era uma ilegalidade.
Gilmar Mendes, após a exposição inicial de Toffoli, tomou a palavra: “Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar”. O decano da Corte adiantou que seu voto seria pela rejeição da arguição de suspeição contra Toffoli. Ele concordou com o que Cármen Lúcia havia dito em reunião menor: o caso precisava ser resolvido logo, antes do Carnaval. Cármen e Fachin haviam decidido pressionar por uma sessão no plenário na sexta-feira (13) para julgar o pedido da PF. Naquele momento, Toffoli considerava isso uma boa solução, pois acreditava ter maioria no plenário no dia seguinte —embora o Supremo saísse rachado.
Cármen Lúcia declarou: “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”. Ela afirmou ter “confiança” em Toffoli, mas enfatizou que era necessário “pensar na institucionalidade”. Disse que ainda não havia lido o material da PF e pretendia fazê-lo “à noite”. Defendeu uma sessão extraordinária na sexta-feira para resolver o caso antes do Carnaval: “para isso não ficar sangrando, porque não é só você [Toffoli] que sangra, é Corte inteira”.
Luiz Fux foi direto: “O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo”. Sua intervenção, uma das mais curtas da sessão, reforçou a presunção de integridade de Toffoli.
Alexandre de Moraes fez duras críticas à Polícia Federal. Disse que a investigação sobre Toffoli foi ilegal e que havia alertado Andrei Rodrigues diretamente: se houvesse achado sobre autoridade com prerrogativa de foro, a PF não poderia prosseguir sem pedir autorização, sob risco de nulidade. Moraes afirmou ser “amigo” de Andrei Rodrigues, mas que seu voto seria a favor de Toffoli. Defendeu a “institucionalidade”, classificou a atuação da PF como “papel sujo” e disse que, se houve investigação irregular, “era tudo nulo”.
Kassio Nunes Marques afirmou que não cabia arguição de suspeição: “Para mim, isso é um nada jurídico”. Disse ter lido “rapidamente” o relatório da PF e não ter visto “nada” que justificasse suspeição ou impedimento de Toffoli. Criticou a ideia de sessão extraordinária para analisar a arguição: “Isso é um absurdo: o juiz lá da comarca do interior passará a ser comandado pelo delegado local se aceitarmos esse tipo de situação. Acabou o Poder Judiciário do Brasil. O sr. [Fachin] não pode colocar em votação a arguição”. Sugeriu que Toffoli fizesse uma proposição declarando não ser impedido nem suspeito, apresentasse seus argumentos e o plenário votasse. Afirmou: “Pelo que vi aqui, ele vai ter maioria. O ideal seria unanimidade, presidente. Mas estou falando mais sobre encaminhamento, pois do mérito eu não tenho dúvida”.
André Mendonça concordou com Cármen Lúcia sobre a “crise de institucionalidade”. Listou pontos do relatório da PF: “Tem uma questão sobre o que é descrito como relação íntima do ministro Toffoli e Vorcaro. Isso não existe. Está aqui claro que não existe: relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado”. Sobre a ex-mulher de Toffoli, Roberta Maria Rangel, disse que ela “sempre teve uma posição íntegra”. Sobre eventos patrocinados pelo Master: “E a questão de eventos, se for considerada, todos nós somos suspeitos de tudo”. Afirmou ser a favor da manutenção da relatoria com Toffoli, mas alertou: “Pode acontecer com qualquer um de nós [a investida da Polícia Federal]. Quero saber se vão dar esse tratamento para mim. E encerro aqui”.
Cristiano Zanin abriu dizendo que pretendia votar a favor da permanência de Toffoli como relator: “Sou há 1 ano e meio relator de um caso que envolve 3 ministros do STJ e a Polícia Federal até hoje mandou para mim muito menos informação do que essas 200 páginas, com fotos de satélite, cruzamento de celulares…? Isso aqui tudo é nulo”. Relatou ter lido menção à empresa Black Wall Global no relatório, sem saber exatamente do que se tratava. Alexandre de Moraes aparteou: “Eu conheço. Isso aí é o pessoal do Mossad”. Zanin destacou que votaria a favor de Toffoli, posição contrária a eventuais interesses do Palácio do Planalto.
Flávio Dino começou afirmando que concordava “com tudo o que foi dito”, mas declarou: “Essas 200 páginas para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico. A crise hoje é política, presidente [Fachin]. Em 2035, se Deus me der saúde, eu quero estar nesta cadeira. E esta cadeira tem bônus e ônus. Eu acho que não adianta pensar nesta cadeira só nos bônus. Eu acho, sr. presidente, que o sr. deveria ter resolvido isso dentro da institucionalidade da presidência”. Disse ser a favor da relatoria permanecer com Toffoli e que a maioria seguiria o mesmo caminho. Afirmou que suspeição de ministros só cabe em casos extremos: “pedofilia, e se tiver prova, e de estupro, e se tiver prova”. Em tom corporativista: “E qualquer outro pedido de arguição eu sou STF futebol clube”. Sugeriu que Fachin resolvesse sozinho: “Presidente, acho que o sr. teria de resolver isso sozinho. E acabar com isso”. Criticou o relatório: “Isso aqui é um lixo jurídico. Esse problema é político. O ministro pegou uma causa bilionária de R$ 55 bilhões e um negócio dele lá com um fundo de R$ 16 milhões é o problema do país? É óbvio que esse não é o problema do país. Isso é para encobrir os interesses dos grandes empresários”. Propôs: “Eu já disse para o meu amigo e irmão Dias Toffoli: veja que já tem maioria. Mas não vai ser unânime. Mas o ministro Dias Toffoli tem voto para continuar. Eu acho, sr. presidente, que o ideal seria resolver isso administrativamente, numa nota, em que os 10 ministros assinassem, dizendo que apoiam o ministro Dias Toffoli, que não há suspeição nem impedimento”. Sugeriu que, mesmo com a nota, Toffoli encaminhasse o caso para redistribuição “num gesto de grandeza e em defesa da institucionalidade”.
Fachin insistiu: “Creio que devamos julgar amanhã no plenário”. Toffoli respondeu que entendia ter maioria e poderia, “na forma regimental”, pedir a redistribuição do processo à presidência do STF. Afirmou: “Eu sei que a imprensa vai divulgar que eu fui retirado do processo. Eu preferia que fosse diferente, mas se for a decisão hoje para parar hoje… é melhor e eu aceito”.
Por sugestão de Flávio Dino, amigo de Toffoli há mais de 20 anos, os ministros concordaram em soltar uma nota de apoio a Toffoli. Em troca, o ministro entregou o caso para redistribuição, e o novo relator passou a ser André Mendonça. Alexandre de Moraes já havia adiantado que considerava “absurdo” Andrei Rodrigues investigar ministro do STF sem autorização prévia, pois autoridades com foro privilegiado só podem ser alvo de relatório da PF com autorização.
A reunião expôs divisões internas, mas também um forte senso de corporativismo. A maioria defendeu a manutenção de Toffoli, criticou a PF por suposta extrapolação e priorizou a “institucionalidade” da Corte. A redistribuição evitou confronto em plenário, mas o episódio da suposta gravação clandestina permanece como alerta sobre vulnerabilidades no sigilo das deliberações do Supremo. O caso Master, com suas ramificações financeiras e políticas, ilustra como investigações sensíveis podem gerar tensões entre poderes, exigindo equilíbrio constante entre independência judicial, accountability e percepção pública da instituição.
Fonte: gazetabrasil





