A sétima geração da Ford Ranger chegou ao Brasil em 2012 como parte da estratégia global da marca chamada “One Ford”. O projeto, desenvolvido majoritariamente na Austrália, reposicionou a Ranger como uma picape média moderna, espaçosa e potente, com bom pacote de equipamentos e um porte imponente para enfrentar rivais como Toyota Hilux, Chevrolet S10 e Mitsubishi L200.
Ao longo dos anos, a Ranger ofereceu uma ampla gama de versões com motores 2.5 flex, 2.2 diesel e 3.2 diesel de cinco cilindros. Também havia a opção de câmbio manual ou automático, além de tração 4×2 ou 4×4. Em 2016, a caminhonete passou por uma reestilização importante e ganhou mais tecnologia embarcada, como central multimídia Sync, controles eletrônicos de tração e assistência de frenagem de emergência.
No mercado de usados, a Ranger é uma opção atrativa pelo conforto, desempenho e custo-benefício, em especial quando comparada a concorrentes com valor de revenda mais elevado. Porém, dois problemas graves e amplamente documentados exigem atenção redobrada antes da compra: o risco de incêndio em modelos diesel por acúmulo de vegetação próxima ao escapamento e as falhas mecânicas e elétricas, que afetam motor, câmbio automático e diversos sistemas eletrônicos.
Em setembro de 2018, a Ford anunciou um recall envolvendo todas as unidades da Ranger a diesel vendidas entre 2012 e 2019, com motores 2.2 e 3.2. O motivo: o acúmulo de material vegetal (folhas secas, capim, gravetos) próximo à travessa da transmissão, em uma região muito próxima do escapamento. Com o calor gerado, havia risco de incêndio espontâneo, especialmente em uso rural, off-road ou estradas de terra.
O recall (número 994 no sistema do Ministério da Justiça) envolveu 81.758 unidades, e o reparo consistia na instalação de um defletor térmico e um protetor de travessa, com o objetivo de criar uma barreira física entre o escapamento e a vegetação acumulada.
Segundo a própria Ford, “em casos extremos, a elevação de temperatura pode iniciar combustão dos materiais acumulados, com risco de incêndio e de danos aos ocupantes e ao veículo”. A marca informou, na época, que os serviços eram gratuitos e levavam aproximadamente uma hora.
Apesar da convocação, muitos donos relataram que não foram notificados diretamente pela marca, descobrindo o recall apenas por iniciativa própria. Em fóruns e no Reclame Aqui, surgem relatos de motoristas que enfrentaram incêndios no cofre do motor mesmo com a manutenção em dia.
“Comprei uma Ranger 3.2 Diesel 2016 e, após um passeio por estrada de terra, senti cheiro de queimado. Quando parei, havia fumaça saindo do assoalho. Descobri depois que o recall existia, mas o antigo dono nunca fez”, relatou um consumidor no site Reclame Aqui. Hoje, no entanto, é mais simples identificar um carro com o recall pendente, já que a não realização do serviço impede a transferência e licenciamento do carro.
Além do risco de incêndio, a Ford Ranger de 2012 a 2019 também apresenta uma série de falhas mecânicas e elétricas. Os problemas variam conforme a motorização e o uso do veículo, mas existem padrões de reclamação recorrentes, especialmente os motores a diesel.
O motor 3.2 turbodiesel de cinco cilindros, com 200 cv e 47,9 kgfm, é elogiado pelo desempenho, mas vem sendo criticado por consumo excessivo de óleo lubrificante, falhas no turbo, desgaste prematuro dos bicos injetores e até trincas no bloco em casos extremos.
Em uma reclamação no Reclame Aqui, um proprietário da Ranger XLT 3.2 2019 afirmou: “A cada 1.500 km tenho que completar até 3 litros de óleo. O carro está dentro da quilometragem e com todas as revisões feitas. Já troquei retentores, revistei turbina e injetores. Nada resolve”.
Segundo outros relatos, esse consumo excessivo de óleo e falhas de lubrificação teriam levado diversos modelos ao calço hidráulico, quando o pistão tenta comprimir um líquido na câmara de combustão e danifica os componentes mecânicos.
O engenheiro e empresário Daniel V. relatou problemas semelhantes com sua Ford Ranger Limited com motor 3.2 a diesel. Segundo Daniel, que usa o carro como uso pessoal e no trabalho como engenheiro ambiental, o carro foi comprado seminovo já com uma troca de turbina realizada.
A troca dessa vez foi também na bomba de óleo, que perdeu pressão, falhou em lubrificar suficientemente o sistema da turbina e ocasionou a quebra do componente. Já fora do período de garantia, Daniel teve que arcar com um orçamento de quase R$ 12 mil reais para troca dos dois componentes.
A Ford Ranger ainda é uma picape atraente, com boa relação custo-benefício, desempenho competente e conforto para rodar tanto no asfalto quanto fora dele. Mas os problemas estruturais e eletrônicos, somados ao histórico grave de recall por incêndio, exigem atenção redobrada no momento da compra.
Antes de fechar negócio, verifique se o recall do defletor térmico foi feito e está documentado, se o veículo possui laudos de vistoria cautelar ou de procedência, além de um histórico detalhado de manutenção. Prefira unidades com baixo uso off-road, revisões em concessionária e histórico transparente. E, se possível, leve o veículo para uma avaliação técnica especializada.
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Fonte: direitonews