Aos que curtem falar — e ler — sobre carros, os motores rotativos do tipo Wankel são um tanto quanto intrigantes. Famosos pelos altos índices de emissões, saíram de cena em meados de 2012, sendo o Mazda RX-8 o último veículo a utilizá-lo. Em uma reviravolta, o motor Wankel já tem data para retornar, agora pelas mãos da Changan para equipar… um carro voador.
A Changan chegou ao Brasil recentemente em uma joint-venture com a Caoa. A empresa divulgou que está concluindo os últimos testes e pretende apresentar este novo motor em 2027.
Por enquanto, este motor — identificado pelo código interno de R05E — será instalado em um eVTOL, um pequeno táxi aéreo de baixa altitude que parece um helicóptero, mas é popularmente conhecido como um carro voador. Foi desenvolvido pela Changan em parceria com a empresa austríaca AVL e terá em torno de 72 cv de potência.
A escolha deste propulsor para um helicóptero se dá por conta do baixo peso. Um eVTOL precisa de materiais leves em toda sua construção para manter boa relação custo-benefício. Todavia, o retorno dos motores Wankel aos automóveis não está longe de acontecer, como iremos elaborar à frente. Mas, antes, como funcionam?
Nos automóveis modernos, estamos acostumados com motores três ou mais cilindros. Quanto ao número máximo de canecos, a indústria já atingiu a marca de 16 cilindros para veículos urbanos, caso do motor W16 que equipa o Bugatti Chiron. Este conceito cai por terra ao abordarmos os motores Wankel, que levam o nome de seu criador, o engenheiro alemão Felix Wankel (1902-1988).
Isso porque o motor Wankel é rotativo, sem cilindros, pistões, bielas e manivelas. Tem uma câmara de combustão com formato cilíndrico onde há um rotor em formato triangular que funciona como um “pistão central”. Este gira na direção do eixo principal, que equivale ao virabrequim nos motores convencionais. Nos espaços deixados pelo rotor durante o giro, o motor Wankel executa os quatro tempos clássicos: admissão, compressão, explosão e exaustão.
Portanto, o motor Wankel precisa girar uma única vez para cumprir os quatro tempos, enquanto o virabrequim dos motores tradicionais com pistões — que sobem e descem — precisam de dois giros. É por isso que a Mazda conseguiu extrair resultados de potência e torque elevados de seus esportivos.
Considerando o tamanho da câmara de combustão e do rotor, o motor Wankel comercial é classificado como 1,3 litro. No entanto, como precisa de apenas um giro para cumprir os quatro tempos, e não de dois, é como se tivesse o dobro da capacidade cúbica na comparação com os motores de cilindros — logo, 2,6 litros.
Havia ainda uma questão estrutural. Os motores rotativos são menores que os convencionais, o que permite instalá-los numa região mais baixa no veículo. De tal forma, o centro de gravidade e a distribuição do peso ajudam a proporcionar uma dirigibilidade mais esportiva e equilibrada. Tal característica é compartilhada com os motores boxer, igualmente compactos.
Estes e outros atributos chamaram atenção da Mazda, a marca mais reconhecida por utilizá-los em seus carros, especialmente nas famílias RX-7 e RX-8. Em 1991, o Mazda 787B se tornou o primeiro esportivo com motor rotativo a vencer as 24 Horas de Le Mans. Mas, para o desespero da marca japonesa, o lado obscuro dos motores Wankel prevaleceu.
Para começar, estes motores tinham sérias questões ambientais, pois o funcionamento exigia a queima de óleo. O lubrificante era injetado em sua câmara de combustão para selar o rotor e reduzir o atrito. As altas emissões, portanto, foram determinantes para declarar o seu fim.
Além disso, praticamente todos os motores Wankel passam por um desgaste prematuro de suas vedações. A manutenção é mais frequente e complexa do que nos carros com motores a pistão, o que expõe sua fragilidade.
Por fim, este motor ainda sofre com questões relacionadas ao superaquecimento. Seu formato cilindrico impede a dissipação eficaz do calor, o que causa, em casos severos, vazamentos e desgaste prematuro. Porém, há uma luz no fim do túnel.
Desde 2012, nenhum carro de passeio oferece motores rotativos. Isso está para mudar, pois engenheiros de diversas marcas, inclusive da Mazda, já notaram uma finalidade muito específica para ressuscitá-lo.
O porte compacto dos motores Wankel permite alocar um aparato elétrico completo na região superior, o que pode auxiliar, por exemplo, a sua instalação em veículos EREV (Extended Range Electric Vehicle). São os chamados híbridos em série, que também voltaram a surgir na indústria global após uma década em baixa.
A ideia é que estes motores sejam utilizados somente para estender o alcance de carros elétricos, como geradores, sem conexão direta com as rodas. É um arranjo semelhante ao do Leapmotor C10, que tem motor 1.5 a gasolina de quatro cilindros.
O CEO da Mazda, Masahiro Moro, revelou detalhes sobre os desafios do desenvolvimento do motor Wankel do futuro. Em entrevista para o site britânico Autocar, o executivo afirmou que, para gerar um fluxo maior de energia, este novo motor terá dois rotores em câmaras separadas, e não apenas um.
A Mazda retomou o desenvolvimento de um novo motor Wankel para equipar um esportivo. Porém, ao menos por enquanto, é a Changan que sai na frente com o novo conjunto de seu helicóptero. Ironicamente, as marcas são parceiras no mercado chinês, onde detêm uma joint-venture. Novos detalhes serão divulgados em 2027, durante sua apresentação. Resta saber se este novo conjunto tem a chance de surgir em um carro chinês.
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Fonte: direitonews






