Meses de planejamento, modelos digitais, construção de chassi, avaliação de rigidez estrutural, cálculos e mais cálculos… Estes métodos são intrínsecos no universo do automobilismo. Porém, existe uma outra modalidade em que todos eles são aplicados: nos desfiles de escolas de samba do carnaval.
Só em São Paulo, a festa movimentou R$ 5,72 bilhões em 2024 — e existe a expectativa de um montante ainda maior neste ano. Para as 14 escolas de samba que compõem o Grupo Especial, e as outras 18 que almejam espaços de destaque nas séries de acesso, a cerimônia também carrega uma enorme rivalidade.
Os protagonistas da disputa são os famosos carros alegóricos, que vão colorir o Sambódromo do Anhembi até o próximo dia 2 de março. Mas o que há por baixo da estrutura enfeitada que encanta nos desfiles?
Autoesporte esteve no barracão da escola Rosas de Ouro, na Fábrica do Samba, para acompanhar com exclusividade parte da montagem e entender como funcionam os processos de desenvolvimento. Surpreendentemente, carros alegóricos e o automobilismo têm mais pontos em comum do que imaginamos. Um spoiler: há imagens dos carros que vão desfilar no Anhembi na noite desta sexta-feira (28) e madrugada do sábado (1).
Se na Fórmula 1 existem os boxes, o Carnaval de São Paulo funciona de maneira semelhante. A Fábrica do Samba, localizada na região da Barra Funda, é um espaço repleto de galpões para a montagem dos carros alegóricos. Entre as escolas do Grupo Especial, apenas a Império da Casa Verde não se instalou no complexo — afinal, seu barracão está a poucos metros do Sambódromo do Anhembi.
Trata-se de um espaço para facilitar processos logísticos durante a montagem dos enormes carros alegóricos. Ao todo, são 14 galpões distribuídos em três blocos. Mas também pode ser uma experiência brutal: uma escola de samba rebaixada do Grupo Especial precisa fazer as malas e deixar a instalação o quanto antes.
Este nunca foi o caso da Rosas de Ouro. A tradicionalíssima escola da Freguesia do Ó quase passou pela degola duas vezes. Em 2008, na primeira ocasião, só não caiu pela extinção do Grupo de Acesso. Em 2023, passou raspando e permaneceu na elite por um décimo, ficando na 12ª colocação.
Fomos guiados por Alexandre Vicente, diretor de barracão, e Yago Duarte, do setor de design, criação e arte. Se a Rosas de Ouro estivesse na Fórmula 1, seriam dois entre os profissionais mais importantes da equipe. Alexandre faz a supervisão da parte estrutural dos carros, enquanto Yago garante que a ideia do carnavalesco será retratada fielmente.
A definição começa a partir da composição do samba enredo. Ele é dividido em quatro partes de acordo com o tema proposto pelo carnavalesco. Deve-se contar uma história que tenha começo, meio e fim — e para complementá-la, cada escola pode construir quatro carros alegóricos.
Neste ano, a Rosas de Ouro aposta na história dos jogos. Eles serão retratados desde a Grécia antiga, passando pelos tabuleiros e cassinos até chegar à era digital. Deixo aqui um spoiler: se você era fã dos games da Nintendo, vai se surpreender com o último carro alegórico. A nostalgia vai tomar conta.
Yago Duarte conta que as escolas de samba já foram dependentes de maquetes nas etapas de planejamento, mas o processo foi digitalizado. Entusiasta da folia desde o berço, o designer veio de Manaus para realizar o sonho de trabalhar em uma agremiação do Grupo Especial. O que facilitou sua carreira foi justamente o domínio das projeções 3D, algo pouco explorado na década passada.
“Aqui já consigo escolher as texturas, os tipos de tecido e os materiais da decoração”, afirmou, enquanto aproximava a imagem para revelar as minúcias do carro alegórico. Ao seu lado, mantém folhas empilhadas com vários materiais grampeados para serem usados como referência. Dessa forma, Yago consegue calcular quanto de cada item será necessário para a criação dos carros alegóricos.
E são muitos materiais: plástico, microfibra, alumínio, ferro, madeira, tecidos acetinados, fibra de vidro, papel e muitos quilos de isopor. Só a fibra de carbono, tão comum nos carros de corrida, não deu as caras. Tais componentes, bem como o peso das pessoas que estarão no carro durante o desfile, devem ser calculados antes do início da construção. É aí que entra o trabalho do diretor de barracão, Alexandre Vicente.
O militar aposentado Alexandre Vicente dirige o barracão do Rosas de Ouro desde 2018. Ele cuida da parte técnica para que o espetáculo artístico aconteça, e deve se atentar, por exemplo, à altura do carro alegórico enquanto ele está no barracão.
Este é outro ponto determinante para o sucesso do desfile, pois alguns carros chegam a ter o dobro da altura limite da porta. Depois, já no pátio do Anhembi, as escolas podem armar guindastes para acoplar estruturas maiores. Por questões de segurança, a Liga das Escolas de Samba sempre exige a emissão de uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) assinada por um engenheiro.
“Usamos os chassis da Mercedes e da Volvo como base estrutural. São os melhores”, relatou Alexandre. “É possível aproveitar um chassi por cerca de dez anos. Os que utilizaremos no desfile deste ano estrearam em 2023”.
Para construir um carro alegórico convencional com 15 metros de comprimento e seis rodas de cada lado, o eixo original do caminhão é alargado. Até por isso as agremiações removem o volante e instalam um acessório chamado de “cambão”. Ele fica conectado a um disco rotativo ligado às rodas, que seria equivalente à caixa de direção. Quando há mais de um eixo esterçante (representado na imagem acima), faz-se a conexão de um disco para outro com duas barras de ferro. Assim, um único movimento no cambão faz até quatro rodas girarem.
O cambão é utilizado para manobrar o carro alegórico. A parte mais desafiadora é retirá-lo do barracão. Sua estrutura chega a ter 15 metros de largura, que é o limite da porta, e por isso muitos adereços laterais são colocados quando o veículo já está do lado de fora. Neste ano, um dos carros alegóricos (imagem abaixo) terá um elevador embutido para que sua estrutura fique mais baixa ao sair do barracão.
Um carro alegórico pode ser encaixado no outro. Assim, o comprimento máximo chega a 30 metros. Já a altura depende da ambição de cada escola de samba. No Rio de Janeiro, a Unidos do Porto da Pedra chegou a fazer uma estrutura com 22 metros em 2023 — o equivalente a um prédio de sete andares.
Por fim, na semana de deslocamento até o Anhembi, um mecânico faz a inspeção para garantir a integridade técnica. São avaliadas, principalmente, as questões de rolamento e lubrificação. Uma roda travada pode ser catastrófica durante o desfile. O ideal é não economizar na graxa, contou o diretor do barracão.
No momento do desfile, com os dançarinos posicionados, um carro alegórico pode exceder 25 toneladas. Algumas escolas instalam motores de caminhão para aumentar o torque, mas Alexandre garante que o método old school de empurrar é o mais confiável. Até as agremiações com carros motorizados têm pessoas para auxiliar em casos emergenciais, relatou.
São necessárias 30 pessoas para empurrar um carro alegórico sem grande esforço. Isso, claro, se os rolamentos não estiverem travando. À frente fica o condutor, que tem a tarefa de mover o cambão e garantir que as manobras sejam efetuadas com precisão. Tudo se torna mais fácil no Sambódromo do Anhembi. “É uma linha reta. Não tem o que fazer”, brincou o diretor do barracão.
Após todos estes processos, acontece a festa que assistimos pela televisão. É o resultado de quase um ano de trabalho, de um investimento de pelo menos R$ 3 milhões e de inúmeros funcionários que se dedicam dia e noite de forma sincronizada. Assim como no desenvolvimento automotivo, um processo atrasado pode criar uma bola de neve.
Quando a festa acaba, os carros são recolhidos de volta aos galpões da Fábrica do Samba. As escolas aguardam o início da Apuração do Carnaval de São Paulo, que costuma acontecer na terça-feira seguinte.
As agremiações que mais pontuaram vão para o Desfile das Campeãs. Por isso, os carros alegóricos permanecem montados. As demais escolas, bem como as duas rebaixadas, desmembram os veículos. Peças, decorações, adereços e roupas são doados para escolas de samba do interior. Se o abre-alas do desfile deste ano trará um cassino, a sorte está lançada para a heptacampeã Rosas de Ouro no Carnaval 2025.
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Fonte: direitonews