O ano era 2012 e a Volkswagen nem sonhava em ausentar-se de um Salão do Automóvel de São Paulo. No estande da marca estava uma das vedetes do evento, o Taigun. Talvez você nem lembre desse conceito, mas seu objetivo na época era ser o que o Tera é hoje.
Ainda que tenha sido apresentado como um conceito, ele era 100% funcional: pintado na cor Seaside Blue, era equipado com um motor 1.0 TSI de três cilindros a gasolina com 110 cv. Pesava 985 kg, ia de 0 a 100 km/h em 9,2 segundos e alcançava 186 km/h de velocidade máxima (dados de fábrica).
O Taigun recebeu status de grande estrela: veio o presidente global, a Volkswagen chamou a apresentação de “estreia mundial” e, em comunicado, disse que “se chegar à produção em série ele poderá ser comercializado internacionalmente, e não apenas na América do Sul”.
A fabricante ainda reforçou que “todos os conceitos que a Volkswagen apresenta nos salões podem se tornar veículos de produção. É bem provável que o Taigun venha um dia a aparecer nas concessionárias”.
O estilo do Taigun remetia diretamente ao então menor SUV da marca, o Tiguan — até o nome era parecidíssimo, com as mesmas letras em outra ordem. Seu lançamento comercial já era dado como certo: estimava-se 2016, mas isso nunca aconteceu. O que será que deu errado?
Pode-se dizer que matou o Taigun seu berço, bom demais. O modelo nada mais era do que um SUV de entrada do Up!, um subcompacto de excelente qualidade construtiva — não à toa, recebeu cinco estrelas nos testes de colisão do Latin NCAP da época, conquista inédita no segmento. Porém, isso tinha um preço, literalmente.
O Up! foi lançado no Brasil em 2014, colocado pela própria marca como sucessor do Fusca, um fardo enorme. A expectativa era vender 120 mil unidades apenas no primeiro ano, mas foram apenas 59 mil, menos da metade. O marco de 200 mil Up! nacionais produzidos só foi alcançado três anos depois do lançamento, mesmo engordado por exportações para sete países da América Latina.
Isso ocorreu por uma soma de razões: estilo não exatamente unânime, uma estranha estratégia de oferecer apenas versões mais caras de início e a concorrência feroz na faixa de entrada, bem diferente de hoje: o Up! tinha de brigar não só dentro de casa, contra Gol e até Fox, mas também na rua, onde estavam Mille, Novo Uno, Palio Fire, Celta, Onix, novo Ka, HB20 e outros.
Em 2015 o Up! ganhou exatamente o conjunto mecânico do Taigun mostrado no salão de 2012, ou seja, o motor 1.0 TSI (turbo com injeção direta). Mesmo assim, suas vendas não decolaram.
Esse cenário acendeu uma luz vermelha enorme na sede da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP). Isso porque o plano era que Up! e Taigun, juntos, alcançassem no mínimo 200 mil unidades fabricadas ao ano, justificando o uso de uma plataforma só deles (a PQ12).
Mas o Up! não embalava no mercado e acabou entrando no círculo mais temido por um carro: vendas em queda faziam com que seu já alto custo unitário de produção crescesse, forçando o preço de venda ainda mais para cima e levando as vendas ainda mais para baixo, na mesma proporção.
O financeiro e a engenharia avisaram que não dava para reduzir o custo de produção da PQ12, e a diretoria ficou com medo de que os clientes transferissem ao Taigun a mesma impressão que tinham do Up!: caro demais para o tamanho. Foi o golpe fatal, dado em 2015.
A decisão foi deixar para produzir um SUV pequeno na plataforma MQB do Polo, que tinha chance muito maior de alcançar bom volume e fazer o círculo inverso do Up! — quanto mais vender, menor é o custo de produção e mais competitivo o carro pode ser. Mas de lá até aqui foram necessários 13 anos para nascer um modelo na mesma faixa de mercado do Taigun, o Tera.
De qualquer forma, a VW aprendeu a lição e fez o Tera de um tamanho mais próximo ao do T-Cross do que do Up! — o Taigun tinha só 3,85 metros de comprimento, mesma medida de um Nissan March.
No entanto, nem tudo se perdeu: do Taigun sobrou o motor TSI 1.0 embaixo do capô do Tera. Todo o resto, porém, ficou mesmo só na história — e no material de divulgação que hoje é peça do acervo do Miau, o Museu da Imprensa Automotiva.
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Fonte: direitonews






