Análise: mundo teme guerra por semicondutores, e ascensão da China no setor alarma o Ocidente


O fornecimento de semicondutores à indústria automotiva brasileira esteve com a corda no pescoço. Isso porque 40% dos nossos chips vêm da Nexperia, uma subsidiária da empresa de semicondutores chinesa Wingtech, sediada nos Países Baixos.
Em outubro, o governo holandês tomou o controle da empresa, citando preocupações com a segurança nacional, e ordenou a remoção do CEO da companhia, Zhang Xuezheng, do cargo. Em resposta, a filial chinesa anunciou a interrupção do envio de matérias-primas à prima europeia, criando um nó logístico mundial.
Na semana passada, entretanto, Amsterdã anunciou a suspensão da intervenção na empresa após conversas com Pequim.
Mundioka #757 - Sputnik Brasil, 1920, 26.11.2025

A Nexperia é uma fornecedora crucial de chips básicos para a indústria automobilística, e a escassez desses componentes vem ameaçando a cadeia de suprimento global. Em meio à crise, a China garantiu que as remessas ao Brasil estão garantidas, mas a problemática é mais um indício do papel central dos chips e semicondutores na geopolítica atual.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, o presidente da estatal brasileira de semicondutores, Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), Augusto César Gadelha, destaca que hoje os Estados Unidos estão perdendo a liderança nessa tecnologia.
“Os EUA já estiveram à frente nos semicondutores, foram os criadores de todo o uso de semicondutores na área computacional e em tudo que temos na sociedade. Mas eles pararam um pouco no tempo e agora estão querendo recuperar isso com esses esforços de atrair todos os seus recursos humanos.”
Produção de microchips - Sputnik Brasil, 1920, 06.11.2025

Do outro lado do mundo, a China trilhou o caminho oposto. Desde a década de 1980 já considerava os semicondutores um setor crucial para o desenvolvimento.

“A China passou a considerar isso uma prioridade nacional.”

Nesse mesmo período, o Brasil também estava começando a dar importância ao setor, mas não lhe deu continuidade. O país, diz, não conseguiu definir o setor como um projeto de Estado. “O Brasil jamais transformou semicondutores em uma prioridade nacional.”
O presidente da Ceitec explicou ao podcast que o desenvolvimento de uma indústria para o setor leva em torno de 20 anos e que hoje a empresa desenvolve semicondutores para nichos específicos.
“Por exemplo, nós elegemos a fabricação de semicondutores de potência, que são utilizados na área de conversores de potência, de correntes elétricas, de tensões com aplicações em carros elétricos, em energia alternativa e em motores industriais.”
“Mas os semicondutores independentes de chips vão ser produzidos no exterior. Nós não temos condições nem capacidade para desenvolver semicondutores mais avançados.”
Em contraponto, a China, que conseguiu se estabelecer no mundo inteiro, tem uma indústria “comparável”, “compatível” e “competitiva” com a dos EUA, detalhou Gadelha. “E isso preocupa demais os países ligados aos EUA”.
Chips semicondutores organizados em uma bancada - Sputnik Brasil, 1920, 15.10.2025

Diego Kerber, jornalista e apresentador do canal Adrenaline, enfatiza ao Mundioka que não é só o Brasil que é dependente da importação dos microchips. “Chegamos a um ponto em que a gente afunilou demais essa tecnologia.”
“Praticamente toda a produção de chips de alto desempenho é feita em uma ilha na Ásia, no caso, lá em Taiwan. Nós temos praticamente todas as máquinas que fazem os chips […] sendo [de] uma única empresa, lá na Holanda.”
Com nossas vidas inteiras armazenadas na nuvem, e quase todos os componentes da tecnologia analógica trocados por digitais, é difícil pensar em um setor que não seria duramente afetado em uma escassez desses produtos.
“Hoje tem mercados que você não imagina que estão usando chips; a gente incorporou isso de uma forma que é surpreendente. A gente tem, hoje em dia, semicondutores em tudo, e, quando não tem, a gente tenta achar um jeito de colocar.”
Por conta disso, hoje há uma preocupação com uma possível guerra desencadeada pela falta de semicondutores, e Kerber aponta que a União Europeia e os Estados Unidos vêm investindo bilhões em fábricas do setor.
“Porque os semicondutores começaram a ficar tão importantes quanto qualquer outro insumo, especialmente para quem está preocupado com conflitos, como combustíveis, como equipamento de guerra bélica”, destaca o analista.
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Fonte: sputniknewsbrasil

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